domingo, 26 de dezembro de 2010

A Rua






Ao se abrir a noite sobre os tetos ela vai só,
achar seus fantasmas em cantos esquecidos,
ocultos na luz dos postes, na sombra e beiras
das sacadas, debaixo das copas, nos batentes.

Por endereço tem o domicílio dessas gentes
sem rosto, sem pais, filhos, esposas, maridos,
ninguém esperando nas janelas, nas soleiras
enquanto ela vai e vem trazendo o mesmo pó.

Tem em si duas medidas: uma funda de vazio,
marco nas palmas das mãos de acenar adeus.
Outra; inexata, a medir a solidão de quem fica.

A rua separa em mim duas medidas que eu crio:
uma, do lado de lá, para o tempo que se perdeu;
a outra bem aqui, onde me reparte e multiplica.




Fotografia: Rua do Bom Jesus - Recife - PE




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